
Organizado por Marina Duarte e Luiz Morando, o livro é um fruto das inúmeras investidas acadêmicas no Acervo LGBT Cintura Fina da UFMG. Baixe o documento no final da página.
Este livro nasce de uma pergunta incômoda: é possível falar em memória de quem não teve passado reconhecido? A questão não é retórica. Ela emerge do contato direto com os materiais do Acervo Especial LGBT+ Cintura Fina — bilhetes sem destinatário, fotografias clandestinas, recortes de jornais policiais, cartas que nunca chegaram — e impõe a quem os manuseia a consciência de que preservar essa memória é também um ato de reparação. Um ato de reconhecimento tardio, mas necessário, da humanidade daqueles que o Estado, a medicina e a moral pública insistiram em apagar.
A institucionalização de um acervo de memória LGBT+ em uma universidade pública suscita questões que vão além da mera logística arquivística ou museológica. Ela implica negociar com estruturas de poder que, historicamente, contribuíram para a marginalização dos sujeitos cujas memórias se pretende preservar. A universidade, como instituição, carrega em si as marcas de sua origem elitista, patriarcal e heteronormativa. Questionar esses fundamentos a partir de dentro é um gesto ao mesmo tempo necessário e contraditório, mas inerente à própria condição de transformação institucional
O trabalho do NUH/UFMG com o Acervo Cintura Fina insere-se, assim, em um movimento mais amplo de construção de arquivos dissidentes — arquivos que recusam a lógica dominante sobre o que merece ser preservado e apostam na potência política da memória dos excluídos. Em tempos em que os direitos LGBT+ são novamente ameaçados e em que o passado é instrumentalizado para legitimar novas formas de violência, a existência desse acervo é, em si mesma, um ato de resistência e de afirmação da humanidade de todos os que ali estão representados.
Este livro, que vem a público trazendo algumas das peças do Acervo LGBT+ Cintura Fina, é uma expressão dessa riqueza de coisas frágeis — peças encarnadas, vidas vividas com brutalidade, delicadeza e afeto. As páginas que se seguem são, ao mesmo tempo, documento e testemunho, análise e reverência. Convidam os sujeitos a habitar, por instantes, o tempo daqueles que viveram sem a garantia de serem lembrados. O esforço coletivo de organização desta obra e de escrita sobre as coisas frágeis há de ser não apenas reconhecido, mas comemorado — como se comemora tudo aquilo que resistiu.
– Marco Aurélio Máximo Prado (trechos retirados da Apresentação)
